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2 de junho de 2017



Vem ver o dia crescer entre o chão e o céu.
O aroma dos verdes campos irem sendo orvalho na alta lua.
Os bois deitados olham a frente e o longe, atentamente, aprendendo alma futura nas harmonias distribuídas.
O mesmo sol das terras antigas, lavra nas pedras estrelas claras.
Nem as nuvens se movem. Nem os rios se queixam.
Estão deitados, mirando-se, dos seus opostos lugares e amando-se em silêncio, como esposos separados.
Neste descanso imenso, quem te dirá que viveste em tumulto e houve um suspiro em teu lábio, ou vaga lágrima em teus dedos.
Morreram as ruas desertas e os ávidos habitantes, ficaram soterrados pelas paixões que os consumiam.
A brisa que passa vem pura isenta, sem lembranças.
Tece carícia e música nos finos fios do arrozal.
Em tua mão quieta, pousarão borboletas silenciosas.
Em teu cabelo flutuarão coroas tremulas de sombra e sol.
Tão longe, tão mortos, jazem os desesperos humanos.
E os corações perversos não merecem o convívio sereno das plantas, mas teus pés andaram por aqui entre flores azuis, e o perfume te envolverá como um largo céu.
O crepúsculo que cobre a memória, o rosto, as árvores, inclinará teu corpo, docemente, em sua alfombra.
Acima do lodo dos pântanos, verás desabrochar o voo branco das garças.
E, acima do teu sono, o voo sem tempo das estrelas.

Cecília Meireles. 

Foto: Maria Luzia

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